segunda-feira, 6 de abril de 2009

O menino que vendia palavras e o aparelho _ Ignácio de Loyola Brandâo

Ignácio entre as "Anas"!


Ignácio de Loyola Brandâ no Sesc Piracicaba


O menino que vendia palavras e o aparelho
Ana Marly de Oliveira Jacobino

-Não fui à missa neste sábado. Troquei Jesus pelo Ignácio!
E a Áurea do outro lado da linha telefônica, sem entender quase nada, depois que coloquei um aparelho ortodôntico e falo como personagem de desenho animado.
-Bonifácio?
- Não! Ignácio!
-Ah! Ignácio? Não é um santo lá dos jesuítas?
-Não é esse Ignácio. É o outro! Se bem que ele nasceu no dia em que o outro morreu!
-Quem nasceu? Quem morreu?
-Eu vou explicar; Aurita. O Ignácio que estou falando é aquele que ganhou o prêmio Jabuti!
-Jabuti? Nossa! Agora que não estou entendendo, mesmo!
-O Ignácio de Loyola Brandão, aquele jornalista, autor teatral e escritor. Pelas minhas contas, o homem já escreveu 31 livros, recebeu muitos prêmios, o último foi o Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção em 2008 com o romance "O Menino que Vendia Palavras".
-Ah! Pena que não pude ir com você. Eu recebi o seu convite no meu e-mail. É que cheguei de São Paulo depois do almoço. Liguei na sua casa e seu marido falou que você tinha saído. Daí pensei que você, para não perder o costume, tinha ido à missa!
-Por isso que você lembrou o tal do santo, então! O Ignácio, o escritor veio falar sobre a importância da memória nos dias atuais, tema da exposição: “Retrato Delas com Suas Fotos”.
-Áurea, o Sesc trouxe para a exposição, 16 retratos e eles revelam toda a sensibilidade e delicadeza do olhar feminino, sobre histórias de vida e imagens da cidade de São Paulo! Os espaços urbanos da capital paulista estão repletos de significados, e ganham notoriedade ao serem retratados por essas mulheres, de 64 a 86 anos, participantes do trabalho social com Idosos do Sesc Consolação, que apresentam suas memórias registradas sobre a pele. A exposição é o resultado de um processo de percepção artística proposto pela fotógrafa Tika Tiritilli e pela atriz Mônica Sucupira.
Disparei a falar sem me preocupar se a minha amiga compreendia o meu linguajar a la “frajolês” ou “patolinês”:
-O Ignácio não é mais o mesmo! Mudou! A partir de 1995, quando foi acometido de um aneurisma cerebral. E, assim, depois deste acontecimento, tornou um homem mais atencioso, muito mais alegre, e delicado, principalmente para os seus leitores e ouvintes.
-Ah, é! Como você sabe?
-É que o conheci em outras das suas palestras, e pode acreditar, ele mudou, mas mudou para melhor! Ele quase não ria! Ele não brincava tanto!
-Ele também contou que uma repórter de um dos nossos jornais aqui de Pira ligou para ele, e após as devidas apresentações e mesuras, perguntou:
-O senhor vai falar sobre o GOLP?
-Golpe? Que golpe?
-E o Ignácio disse ter se lembrado do golpe militar de 64 e falou:
-Mas, eu vou falar sobre o processo de criação de personagens, de diferenças de textos, crônicas, inspiração, fantasia, não vou falar do Golpe Militar de 1964.
-Não! Ignácio, não é deste golpe que estou falando, mas do Golp (Grupo Oficina Literária de Piracicaba). É sobre a sua contribuição e envolvimento para a formação em que você foi a figura fundamental em todo este contexto histórico.
-Eu estava desempregado e vivia ministrando oficinas literárias no interior do Estado. Fazíamos discussões de texto, escrevíamos.
E continuou:
-No processo da criação literária cada momento é um gancho em que você passa para o papel e tudo pode ser um tema.
Inspiração? É também ser interessado nas pessoas ao redor, veja, qualquer assunto pode render uma boa história, pois a imaginação não pode ter limites, vai de uma dupla de senhoras conversando no ônibus, sobre o significado da palavra pobrema até mesmo de algum acontecimento familiar. Qualquer fato, verossímil ou não, pode ser usado na construção de um bom texto.
O escritor compartilhou alguns de seus métodos com os participantes do bate papo literário. Como o hábito de carregar uma pequena caderneta, em que são feitas anotações de casos curiosos, observados nas ruas. Trata-se de um recurso, muito estimulante para colecionar ideias, pois há sempre a possibilidade de alguma boa ideia surgir a partir da simples observação do cotidiano.
-Sou um cronista (literatura sobre pressão). Erico Veríssimo dizia: “Inspiração é o prazo, pois naquela hora você tem que colocar no papel.”
O cronista tem que colocar na crônica a linguagem coloquial, a maneira de se vestir, de viver de cada um e da sua terra. O cronista escreve sobre a sua época, o seu povo, a sua cidade. Escritor não deve ter escrúpulo com ele mesmo. Ele deve soltar tudo. Um escritor ao escrever: “Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto.” Pois é com seus escritos Franz Kafka mudou a literatura mundial!
E o bate papo poderia continuar por horas a fio, mas, acabou! Palmas e homenagens feitas pelas 16 mulheres da exposição de retratos. Cada uma delas entrou segurando uma rosa branca, depois cada uma delas entregou a sua flor ao escritor, gratas pela crônica escrita por ele, sobre elas no caderno do jornal “O Estado de São Paulo”.
Alguns dos participantes se achegaram ao Ignácio para conversar. Eu já tinha tirado várias fotos do palestrante. Mas, de repente, senta ao meu lado a minha prima Ana Maria e pede a minha máquina emprestada, e a entrega para um fotógrafo, ali presente. Eu continuo sentada. Guardava as minhas anotações para esta crônica, quando ouço:
-Ana, venha aqui! Rápido! Anda logo, mulher! Venha tirar uma foto. O moço vai tirar de nós duas; as “Anas e o Ignácio” ou seria melhor “Ignácio entre as Anas?”.
Respondi que não podia, pois estava de aparelho ortodôntico
-Deixa disso mulher, ninguém vai ver o aparelho.
Não acreditei!
Ela começou a me puxar para o lado do escritor e no desespero fiz uma coisa impensada; tirei o aparelho, tão rápido da boca e o joguei dentro da bolsa! E assim pude sair na foto, sorrindo.
Quando estava na portaria do Sesc conversando com o Adriano, o moço da programação, me lembrei do aparelho e senti um calafrio. Procurei e o encontrei inteiro.
Ufa! Ainda não paguei nenhuma das suas prestações!


2 comentários:

  1. Lindo! Muito bom! E o que é melhor: Ana Marly se livrou de um susto e continua com o sotaque patolino!
    Bjos!

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  2. Anônimo8/4/09 09:05

    Rodrigo: vocè é demais! E o melhor você entendo o patolinês (nem precisa de tradutor).

    Abraçoa Poéticos

    Ana Marly de Oliveira Jacobino

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